Em defesa do trabalho híbrido
Você e eu acreditávamos, há poucos anos, que o trabalho remoto seria a principal modalidade nas atividades administrativas em geral. A ideia parecia boa e simples: trabalhar de casa, ter autonomia na gestão do tempo, evitar deslocamentos e problemas de tráfego nas grandes cidades e alcançar um melhor equilíbrio entre a vida pessoal e profissional. Mas observamos um movimento de revisão das políticas de trabalho em diversas organizações, com uma crescente pressão pelo retorno aos escritórios.
No Brasil, pesquisa realizada pela WeWork e pela Offerwise em 2026, com 2.500 profissionais, identificou que 63% dos entrevistados já trabalham de forma totalmente presencial, sendo que 79% deles afirmam que a presença é uma obrigatoriedade imposta pela empresa. Apenas 42% optariam pelo trabalho presencial se a escolha fosse livre. Os modelos híbrido e remoto são os favoritos de grande parte desses trabalhadores.
Mais do que discutir onde o trabalho deve ser realizado, é preciso compreender como diferentes modalidades de organização do trabalho repercutem sobre a experiência psicossocial, o bem-estar e a saúde dos trabalhadores.
Um estudo publicado na revista BMC Public Health dedicou-se a compreender os efeitos do trabalho híbrido sobre a experiência psicossocial dos trabalhadores ao longo do tempo, identificando possíveis benefícios, diferenças entre grupos e fatores associados a essas mudanças. O desenho do estudo foi longitudinal, com observações em 2017 (antes da pandemia de COVID-19) e em 2023 (um ano e meio depois do fim das maiores restrições impostas pela pandemia). Os trabalhadores responderam a um instrumento padronizado, o Work Experience Measurement Scale (WEMS), que avalia dimensões como condições de trabalho, experiência do empregado com seu trabalho, autonomia, liderança, entre outras. As respostas foram analisadas considerando sexo, idade, presença de filhos em casa, posição na empresa (gerencial ou não gerencial), frequência do trabalho presencial e remoto e natureza das atividades.
Os resultados mostraram melhora na pontuação geral (score), que passou de 71 para 74 pontos, e em algumas dimensões específicas da escala após a implementação do trabalho híbrido. Na dimensão experiência do tempo, houve um aumento de 7,2 pontos. Essa dimensão avalia aspectos como ter tempo suficiente para realizar as atividades sem pressão excessiva, conseguir concluir as tarefas durante o expediente e não precisar trabalhar além da jornada programada. Outro achado importante foi que as mulheres apresentaram os maiores aumentos nas pontuações, demonstrando que, na população estudada, a melhora da experiência psicossocial foi particularmente significativa nesse grupo.
Embora o estudo não permita afirmar que o trabalho híbrido, isoladamente, tenha provocado as melhorias observadas, seus achados oferecem evidências importantes de que a flexibilidade pode contribuir para experiências de trabalho mais positivas, em especial entre as mulheres. Esses são motivos suficientes para defender que o trabalho híbrido permaneça como uma opção para favorecer a saúde e o bem-estar dos trabalhadores.
Artigo completo: Corneliuson C, Chafi MB, Tornevi A, Stjernbrandt A, Wahlström V. Psychosocial work experience after implementing hybrid work: a longitudinal study. BMC Public Health. 2026 Apr 24;26(1):1359. doi: 10.1186/s12889-026-27487-x.
