Quem tem um pouco mais de idade lembra do desenho animado de um leão (Lippy) que andava na companhia de uma hiena pessimista (Hardy). Os episódios mostravam as aventuras da dupla, com Lippy tentando algum tipo de empreendimento para sobreviverem como andarilhos, e Hardy sempre apontando o lado ruim e a possibilidade de fracasso, com a frase famosa na versão brasileira: “Oh, dia, oh, céus, oh, azar...”.

Conhece gente assim na sua empresa?

Não exatamente motivados pelo desenho animado, pesquisadores publicaram, na revista Scientific Reports, do grupo Nature, os resultados de um estudo cujo objetivo era verificar se o temperamento mais otimista ou pessimista influencia a maneira como os trabalhadores percebem o ambiente de trabalho.

A pesquisa teve quase quatro mil participantes, que responderam ao Danish Psychosocial Questionnaire (DPQ), que avaliou seis dimensões do ambiente psicossocial (demandas quantitativas e emocionais, clareza de papéis, autonomia no trabalho, trabalho em equipe e liderança), além de estresse, saúde, satisfação no trabalho e medidas de afetividade positiva e negativa.

O resultado principal do estudo foi que a afetividade positiva ou negativa (ser “mais Lippy” ou “mais Hardy”) explicou uma grande parcela das associações entre ambiente de trabalho percebido e bem-estar. Segundo os autores, os dados sugerem que uma parte importante da relação atribuída ao ambiente de trabalho pode, na verdade, refletir diferenças na disposição emocional dos trabalhadores. Isso não significa que o ambiente não importa, mas que pesquisas baseadas apenas no autorrelato tendem a captar simultaneamente o ambiente e a personalidade de quem responde. Os efeitos observados foram consistentes mesmo em avaliações realizadas seis meses depois, o que indica que não parece ser o resultado de um estado emocional momentâneo, e sim de um jeito de ser e de ver o mundo.

As organizações devem interpretar pesquisas de clima, engajamento e bem-estar com alguma cautela, pois os resultados podem refletir tanto a composição afetiva da equipe quanto a qualidade real do ambiente. Em outras palavras, é o cuidado que temos em controlar as variáveis das pesquisas, que, em epidemiologia, recebe o nome sugestivo de variável de confusão. Mas não é nada tão grave que te faça sair por aí dizendo: “Oh, dia, oh, céus, oh, azar...”.

Artigo completo: Craven LH, Kajonius PJ. Individual differences in affect: explaining work environment perceptions and later wellbeing. Sci Rep. 2026 Jun 11;16(1):18178. doi: 10.1038/s41598-026-55924-9.