A força da autonomia no trabalho
Vários alunos dos cursos de pós-graduação e de educação executiva perguntam qual parcela do adoecimento mental pode ser atribuída ao trabalho e quanto deve ser creditado aos fatores externos ao ambiente laboral. Essa não é uma resposta simples, pois existem diversos componentes capazes de influenciar tanto o adoecimento quanto a proteção contra o sofrimento psíquico. O fato é que os fatores que comprovadamente podem causar adoecimento precisam ser identificados e controlados. Um deles é a autonomia no trabalho.
Autonomia no trabalho é a liberdade (acompanhada da responsabilidade) que o empregado tem para gerenciar seu tempo, definir prioridades e tomar decisões sobre suas tarefas sem supervisão constante. O objetivo é alcançar os resultados esperados escolhendo os próprios métodos de execução e evitando o microgerenciamento. A confiança depositada pelos líderes aumenta a motivação, fortalece o senso de pertencimento e estimula a criatividade, permitindo que o profissional se antecipe na resolução de problemas. Além disso, profissionais autônomos tendem a desenvolver maior pensamento crítico e capacidade de autogestão.
Esse seria o cenário ideal. Mas nem sempre é assim.
Joe Spearing, da Universidade de York, no Reino Unido, reuniu mais de 33 mil observações de quase 10 mil trabalhadores acompanhados entre 2009 e 2021 para investigar como os níveis de autonomia no trabalho se associam à saúde mental. Utilizando instrumentos validados e uma análise estatística robusta, o estudo avaliou cinco dimensões da autonomia: sobre as tarefas, o ritmo de trabalho, a forma de executar o trabalho, a ordem das tarefas e os horários de trabalho.
Os resultados mostraram que a baixa autonomia está consistentemente associada a piores indicadores de saúde mental. A dimensão mais fortemente relacionada ao adoecimento foi a autonomia sobre as tarefas. Já a baixa autonomia sobre os horários de trabalho apresentou um efeito particularmente importante entre as mulheres. Esses achados reforçam a teoria de que a autonomia constitui um recurso essencial para lidar com as demandas do trabalho e mostram que sua ausência afeta homens e mulheres de maneira distinta, dependendo da dimensão analisada.
Organizações que oferecem pouca autonomia aos seus empregados devem ser consideradas prioritárias para intervenções. Da mesma forma, profissionais de saúde devem incluir a autonomia como um fator adicional de risco durante o rastreamento de transtornos mentais. Programas de promoção da saúde também precisam contemplar esse aspecto, tanto nas intervenções individuais quanto na discussão e no aprimoramento das políticas institucionais.
Artigo completo: Spearing J. Workplace autonomy and mental health. Econ Hum Biol. 2025 Feb;56:101469. doi: 10.1016/j.ehb.2025.101469
