“Faça o que eu digo, não o que eu faço”
Todos nós já fomos incoerentes em algum momento. A questão é que, quando essa incoerência parte de quem ocupa posições de liderança, seus efeitos podem ultrapassar o plano individual e influenciar o comportamento de toda a equipe.
A expressão do título significa que uma pessoa reconhece o que é correto e sabe dar bons conselhos, mas não tem o hábito de seguir as próprias orientações. É a admissão de uma certa hipocrisia, sugerindo que apenas o conselho deve ser validado, e não o comportamento de quem fala.
O que acontece nas empresas quando os líderes adotam esse tipo de postura?
Um estudo publicado na revista Scientific Reports, que faz parte do portfólio do grupo Nature, investigou como a congruência (ou a falta dela) entre as características morais dos líderes e sua forma de liderar repercutia entre os empregados. Os pesquisadores partiram da premissa de que não basta o líder ter boa conduta moral nem apenas cobrar comportamento ético dos demais. É a consistência entre quem o líder é e como ele lidera que pode determinar as reações dos empregados. Para isso, utilizaram instrumentos validados para avaliar a percepção da moralidade dos líderes e de sua forma de liderar. Como desfecho, analisaram a frequência e o conteúdo de comentários negativos dirigidos a esses líderes. Simplificando bastante, mediram o quanto essa combinação favorecia a "fofoca" organizacional.
Os resultados mostraram que quanto maior a congruência entre os comportamentos éticos pessoais e a forma ética de exercer a liderança, menor era a chance de comentários negativos direcionados a esses líderes. Nem toda incongruência de comportamentos gerava o mesmo efeito: os empregados eram mais tolerantes quando ocorria elevada percepção da integridade moral do líder com menor cobrança de comportamentos éticos do que quando a percepção da integridade moral do líder era baixa com altas exigências de cumprimento das regras. Em outras palavras, os empregados aceitam melhor um líder moral que cobra pouco dos outros do que um líder que cobra ética dos demais sem demonstrá-la em seu próprio comportamento. A hipocrisia é punida com o maldizer nos corredores das organizações.
Esses dados sugerem que os empregados avaliam o líder como uma unidade integrada. Eles não julgam apenas seu caráter ou sua forma de exercer a liderança de maneira ética, mas observam se ambas são coerentes. E se surge a percepção de hipocrisia, a fofoca negativa é uma forma indireta de reação.
O estudo tem limitações (cerca de quatrocentos participantes, desenho transversal, contexto cultural específico), mas é um bom lembrete de que líderes servem de modelo o tempo todo e representam a cultura das organizações. Programas de desenvolvimento de lideranças e de gestão do clima organizacional precisam considerar esses fatores.
Artigo completo: Chen Q, Liu Z, Shi G. The influence of moral leadership (in)congruence on negative workplace gossip is explained by perceived hypocrisy. Sci Rep. 2026 Jun 15;16(1):18191. doi: 10.1038/s41598-026-54395-2
