Alguns medicamentos extrapolam o universo médico e viram símbolos culturais de uma época, seja por promessas milagrosas, uso disseminado, mudanças no comportamento ou até por virarem piadas e memes nas rodas de conversa. Foi assim com o Prozac nos anos 1980, o Viagra no final dos anos 1990 e o Rivotril há vários anos. Os agonistas do receptor de GLP-1, categoria que inclui medicamentos como Ozempic, Wegovy e Saxenda, são exemplos recentes de remédios que ultrapassaram as paredes dos consultórios e viraram assunto cotidiano.

Esses medicamentos têm se mostrado muito eficientes para o controle do peso em pacientes obesos quando há indicação adequada para seu uso. Produtos como o Mounjaro têm ação dupla e efeito potente sobre o controle da glicemia e a perda de peso, e já há em desenvolvimento um produto que promete ter ação tripla. Essas substâncias apontam para uma perspectiva promissora para o controle da obesidade; a esperança é que esses medicamentos se tornem acessíveis à população geral o quanto antes.

Se os benefícios clínicos são visíveis, será que há vantagens do uso desses medicamentos no que se refere à saúde e trabalho?

A revista The Lancet Psychiatry publicou um artigo sobre a associação entre o uso de agonistas do receptor de GLP-1 (semaglutida e liraglutida) e a evolução de desfechos psiquiátricos em pessoas com depressão ou ansiedade. O estudo utilizou registros de saúde da Suécia e incluiu dados de mais de 95 mil pessoas com diagnóstico de depressão ou transtorno de ansiedade entre 2009 e 2022, comparando períodos de uso das canetas emagrecedoras com períodos sem uso desses medicamentos. A principal descoberta foi a associação entre o uso da semaglutida (e em menor grau a liraglutida) e um menor risco de piora do estado mental e de autoagressão.

Do ponto de vista da saúde e trabalho, houve menos afastamentos por razões psiquiátricas com duração igual ou superior a 14 dias entre esses pacientes: a redução foi da ordem de 45% para a semaglutida e de 12% para a liraglutida.

Esses resultados devem ser analisados com cautela, pois o estudo permite identificar associações, mas não estabelecer relações de causa e efeito. Além disso, o menor absenteísmo no trabalho parece estar mais associado à melhora da condição psíquica do que a um efeito direto dos medicamentos sobre o absenteísmo. Mas, se as indicações desses medicamentos já eram amplas, esse pode ser mais um motivo para considerar sua prescrição para pacientes elegíveis.

Artigo completo: Taipale H, Taylor M, Lähteenvuo M, Mittendorfer-Rutz E, Tanskanen A, Tiihonen J. Association between GLP-1 receptor agonist use and worsening mental illness in people with depression and anxiety in Sweden: a national cohort study. Lancet Psychiatry. 2026 Apr;13(4):327-335. doi: 10.1016/S2215-0366(26)00014-3.