Quando o trabalho altera o cérebro
O mundo do trabalho exige, cada vez mais, prontidão e disponibilidade. Isso inclui o trabalho em turnos, que provoca diversas repercussões à saúde, como alterações do sono, maior risco de depressão, prejuízos cognitivos, irritabilidade e maior chance de cometer erros.
As evidências sinalizam que as alterações provocadas pelo trabalho em turnos e pelo trabalho noturno não ocorrem apenas no funcionamento, mas envolvem danos à estrutura do cérebro.
Um grupo de pesquisadores reuniu dados de saúde de mais de 14 mil trabalhadores saudáveis, comparando imagens de ressonância magnética cerebral de trabalhadores em turnos com as de outros que trabalhavam em horários fixos. Os dados foram ajustados para idade, sexo e hábitos, como tabagismo. O resultado mostrou que os indivíduos que trabalhavam em turnos apresentaram pior desempenho cognitivo em domínios como memória e funções executivas. O que mais impressionou foi que esses trabalhadores apresentaram redução de volume em algumas estruturas cerebrais (tálamo direito e amígdala esquerda) e alterações na estrutura da substância branca. Essas alterações comprometem o funcionamento do cérebro e explicam os prejuízos observados na memória, na regulação do sono e das emoções.
Houve uma relação dose-resposta; ou seja, quanto maior a frequência de trabalho em turnos, maior era a redução de volume das estruturas do cérebro, em especial da amígdala. Como o estudo teve um delineamento longitudinal, foi possível identificar que os trabalhadores que deixaram de trabalhar em turnos apresentaram recuperação do volume das estruturas cerebrais em cerca de dois anos e meio. Isso sugere a possível reversibilidade dos danos quando o trabalho em turnos é interrompido.
Esses dados reforçam a recomendação de que o trabalho em turnos e o trabalho noturno sejam entendidos e escalonados como exceção, e não como padrão para todos os empregados de áreas que precisam operar em horários não convencionais. A limitação desse tipo de escala e a maior rotatividade em serviços essenciais podem ser alternativas na organização do trabalho.
Artigo completo: Welton T, Teo TWJ, Saffari SE, Chan LL, Tan EK. Shift work is associated with selective brain volume loss: a longitudinal study. Neuroimage. 2025 Dec 15;324:121619. doi: 10.1016/j.neuroimage.2025.121619.
