“Homem não cuida da saúde”
Você já ouviu isso: “Homem não cuida da saúde, só procura o médico quando já está muito mal...”. Exceto em algumas especialidades, é frequente ver mais mulheres do que homens nas salas de espera de consultórios médicos em geral. Isso pode ser apenas uma impressão, mas o fato é que as mulheres vivem mais do que os homens, especialmente em países de alta renda, e trabalhadores operacionais do sexo masculino têm uma expectativa de vida mais curta, principalmente devido a doenças e lesões evitáveis.
Um estudo publicado na revista American Journal of Men’s Health revisou vinte anos da literatura científica para verificar se a ideia de que homens que trabalham cuidam menos da própria saúde faz sentido ou não. Os resultados mostraram que os homens identificam fortemente para si a responsabilidade financeira, considerando-se os principais provedores e entendendo que devem trabalhar para sustentar suas famílias. Isso geralmente os leva a aceitar qualquer emprego, trabalhar muitas horas e até mesmo renunciar a férias para obter ganhos financeiros. O conceito social de masculinidade, que caracteriza os homens como fortes, os leva a suprimir emoções, suportar dores físicas e atrasar a procura por ajuda, muitas vezes agravando essas condições.
Os pesquisadores também identificaram que os homens geralmente têm uma rede de apoio social e de confiança limitada, o que dificulta a comunicação e o suporte quando precisam de ajuda para seus problemas. Os homens se sentem constrangidos para pedir apoio, estão cientes da importância de se manterem saudáveis física e mentalmente, mas muitas vezes utilizam estratégias de enfrentamento, como o uso de medicamentos, para controlar a dor e continuar trabalhando.
Esses resultados revelam que os homens enfrentam dificuldades significativas, muitas vezes negligenciadas, sob forte influência de construções sociais que os veem como inerentemente fortes. A ênfase na provisão financeira, juntamente com a pressão para confirmar os padrões de masculinidade que a sociedade espera deles, faz com que suprimam suas emoções, evitem a busca por ajuda e suportem o sofrimento físico e psicológico em silêncio. Isso contribui para maiores taxas de adoecimento e de lesões físicas, incluindo as autoprovocadas.
As organizações podem oferecer condições e espaço para a procura de ajuda, reconhecendo vulnerabilidades e garantindo oportunidades de equilíbrio entre trabalho, vida pessoal e familiar. Incentivar a abertura e a colaboração, permitindo que homens procurem ajuda sem constrangimento, é um caminho possível.
Artigo completo: Omolewa P et al. Lived Experiences of Men Working in Both White-Collar and Blue-Collar Jobs: A Systematic Literature Review. Am J Mens Health. 2026 Jan–Feb;20(1):15579883251414638. doi: 10.1177/15579883251414638.