Festejadas ou criticadas, as redes sociais foram incorporadas às nossas rotinas e mediam diversas possibilidades de interação. Usadas com cautela, possibilitam o crescimento pessoal e a partilha de ideias; por outro lado, o interesse ou a geração de conteúdos que estimulam o conflito, a discórdia e toda sorte de polarização, transforma as redes sociais em “rabies sociais”.

Atire o primeiro smartphone quem nunca usou as redes sociais durante o expediente, seja como parte do processo de trabalho, seja para uma espiadinha na vida alheia ou para dar aquela opinião na linha de comentários que mudará o destino da Humanidade. A repercussão dessas mídias em nossa forma de interagir com as pessoas e instituições ainda é um fenômeno que merece melhor entendimento, incluindo os impactos no mundo do trabalho.

Um grupo de trabalhadores participou de um estudo que teve o objetivo de avaliar como o uso de redes sociais durante o horário de trabalho afeta as emoções e o comportamento. Os participantes responderam questionários em duas ocasiões distintas, e as respostas passaram por um processo de modelagem estruturada. Ter acesso à vida dos colegas por meio das redes sociais foi um fator de aumento da inveja e da sensação de esgotamento dos empregados, com influência negativa na própria percepção de realização e produtividade. Esses sentimentos associavam-se a comportamentos prejudiciais às equipes, como ocultar informações do trabalho e tendência à procrastinação. Os resultados sugerem que as comparações sociais impulsionadas por aquelas mídias podem drenar recursos psicológicos dos trabalhadores, reduzindo a eficiência e o comportamento colaborativo.

A vida que se apresenta nas redes sociais costuma parecer melhor do que é na realidade: é a “vida editada”. Mesmo que muitos saibam disso, a percepção do sucesso alheio pode ser insuportável para alguns e as comparações, inevitáveis. Ainda que o estudo tenha limitações em razão da pequena amostra de uma categoria específica de trabalhadores asiáticos, os resultados sinalizam a necessidade de abordar o tema nas organizações.

Os autores sugerem que as empresas implementem estratégias para reduzir o impacto negativo do uso das redes sociais, como letramento e treinamento na regulação emocional e em medidas de promoção de ambientes de trabalho colaborativos. Ainda que sejam caminhos possíveis, a realidade do contato com as “rabies sociais” dentro e fora do ambiente de trabalho é um fenômeno cujas consequências estão em transformação. O autoconhecimento pode ser um elemento protetivo.

Artigo completo: Chen L, Xu Y, He Y. Social media use in the workplace: The role of social comparison in negative behaviors. Acta Psychol (Amst). 2024 Mar;243:104144. doi: 10.1016/j.actpsy.2024.104144.