Os cuidados com a saúde mental são um assunto frequente neste espaço e nas organizações mobilizadas em ações de bem-estar para seus empregados. O artigo de hoje é um convite para outra reflexão: como o adoecimento mental impacta o acesso aos postos de trabalho.

O trabalho é um dos determinantes sociais de saúde. Frequentemente, os debates sobre a saúde no trabalho focam no modo como a organização do trabalho contribui para o adoecimento. No entanto, muitas vezes esquecemos que estar fora do mercado de trabalho ou desempregado é, no geral, tão ou mais nocivo do que determinadas condições de trabalho. Isso não significa que más condições de trabalho sejam aceitáveis, mas sim que não são apenas as condições de trabalho que adoecem, mas também a falta dele.

A falta de emprego está associada à depressão e à ansiedade, além de outras repercussões relacionadas ao estresse, como as doenças cardiovasculares. Além disso, as questões financeiras que geram limitações para itens de subsistência provocam mais prejuízos e incertezas na saúde e no convívio social. E essa maior vulnerabilidade diminui as chances de oportunidades no mercado de trabalho, o que provoca mais adoecimento, fechando um ciclo perverso de sofrimento e empobrecimento.

Um estudo publicado na revista Occupational Medicine com dados de mais de 377 mil pessoas em idade produtiva nos Estados Unidos, observadas por mais de 10 anos, mostra um panorama que merece nossa atenção. Os pesquisadores classificaram os participantes de acordo com a presença ou ausência de adoecimento mental e determinaram como desfecho ter emprego em período integral, parcial, desemprego ou estar fora do mercado de trabalho. O grupo com algum adoecimento mental foi predominantemente composto por mulheres, entre 18 e 34 anos para qualquer diagnóstico (e mais jovens, até 25 anos, para os quadros mais graves) e de menor renda. Pessoas com algum adoecimento mental tiveram 50% mais chance de estar desempregadas ou fora do mercado de trabalho em comparação com aquelas não adoecidas. Quando a questão de saúde mental era mais grave, a chance de desemprego era o dobro em comparação ao grupo controle, quase em uma relação dose-resposta.

Existe uma limitação em estabelecer relação de causa e efeito única usando apenas esses dados como referência. É plausível pensar que pessoas previamente adoecidas têm mais dificuldade para se posicionar no mercado de trabalho devido a questões inerentes à sua condição de saúde. Por outro lado, a identificação de questões de saúde mental nos processos seletivos das organizações pode ser uma barreira, muitas vezes velada, que dificulta o acesso dos candidatos às vagas disponíveis. Fica o convite para que as empresas pensem neste tema como um item da pauta de inclusão.

Artigo completo: Jou J, Hicks A, Johnson PJ. Mental health and employment outcomes in working-age US adults, 2010-2019. Occup Med (Lond). 2024 Jul 26:kqae054. doi: 10.1093/occmed/kqae054.