E se você pudesse saber antecipadamente quais são os empregados com maior risco de se afastarem do trabalho por tempo prolongado? A busca por instrumentos preditores de sinistros em saúde e segurança do trabalho tem sido motivo de esforços de vários grupos, dentro e fora das instituições acadêmicas. Apesar das boas intenções de alguns, o desejo de estar “um passo à frente” neste tema exige certa cautela.

Artigo curioso publicado no Scandinavian Journal of Work, Environment & Health descreve uma pesquisa que convidou mais de 13 mil trabalhadores do setor de varejo da Holanda para que respondessem um questionário simples, composto por 9 perguntas. O critério inicial para recrutar as 13 mil pessoas foi terem se afastado recentemente do trabalho por 4 ou mais dias. Os dados seriam comparados com os de um grupo de controle, composto por outras 104 mil pessoas, de diversos ramos de atividade, que não tiveram afastamentos de 4 ou mais dias nos últimos meses. No primeiro grupo, houve 16% de adesão em participar do estudo e responder o questionário; no grupo controle, 13% aderiram. O desfecho que os pesquisadores estudaram foi o afastamento do trabalho por 6 ou mais semanas por motivo de doença, ao que denominaram “afastamento de longo prazo”.

Um trabalho de validação com ferramentas de estatística foi realizado e a conclusão dos autores foi que o instrumento era eficaz para identificar os empregados com maior probabilidade de afastamento de longo prazo, sobretudo quando aplicado em indivíduos que tiveram afastamentos curtos recentemente. Na conclusão do artigo, os pesquisadores celebram os resultados e sugerem que o questionário deve ser aplicado para trabalhadores do varejo.

Esse tipo de estudo tem diversas limitações metodológicas, como o viés de seleção dos participantes. Mas a reflexão que precisa ser feita é um pouco mais profunda: por que se quer triar trabalhadores com esse perfil?

Alguns podem defender que é uma forma de agir preventivamente, sabendo quais são os empregados que precisam de vigilância especial. Outros, que programas de saúde específicos podem rastrear esses funcionários e evitar custos financeiros e sofrimento individual. Mas vamos pensar mais simples: se o trabalhador faltou recentemente ao trabalho por 4 ou mais dias, bem ele não estava. Então, precisa de questionário que separe trabalhadores “de maior risco” de outros “de menor risco”? Ou ainda, pensando de forma menos ingênua, separar trabalhador “que dá problema” do que “não dá problema”?

Minha sugestão é que a abordagem não deve ser nessa linha. É muito importante que a equipe de saúde seja vigilante nas questões relacionadas ao absenteísmo, mas que o direcionamento das ações seja em benefício de cada empregado e não com objetivos que possam favorecer qualquer segregação. A prática de convidar o funcionário para uma avaliação médica após um afastamento curto, de 3 dias por exemplo, é uma forma de acolher, entender a necessidade do empregado, oferecer ajuda e assistência quando necessário e reforçar os vínculos com a equipe de saúde. Este não é o único, mas é um caminho possível de boa prática.

Artigo completo: Roelen CAM, Speklé EM, Lissenberg-Witte BI, Heymans MW, van Rhenen W, Schaafsma FG. Predicting long-term sickness absence among retail workers after four days of sick-listing. Scand J Work Environ Health. 2022 Sep 1;48(7):579-585. doi: 10.5271/sjweh.4041