Depois do infarto: recomendações para abordagem em saúde corporativa
As doenças cardiovasculares (DCV) são um assunto frequente na prática médica, não só para quem está na linha de frente do atendimento: gestores de saúde corporativa e das operadoras de saúde conhecem os impactos na saúde e qualidade de vida dos usuários, além dos custos financeiros diretos e indiretos.
Os avanços no diagnóstico e tratamento das DCV ajudaram na redução da mortalidade geral, mas a incidência e prevalência continuam elevadas em razão do estilo de vida e do envelhecimento da população. Se por um lado a boa notícia da redução da mortalidade é muito bem-vinda, por outro as consequências das sequelas são motivo de preocupação.
O infarto agudo do miocárdio é um dos eventos cardiovasculares que podem ter consequências graves, e todos os esforços devem ser direcionados para a sua prevenção. Mudança do estilo de vida, controle do peso e dos lipídios no sangue, incentivo à atividade física são algumas das ações que os serviços médicos das (boas) empresas já vêm assumindo como parte da proteção da saúde dos seus empregados.
Quando o infarto acontece, diversas sequelas podem se estabelecer em curto e médio prazo. Um estudo muito robusto foi publicado no Plos Medicine com dados de quase 56 milhões de pessoas atendidas no sistema de saúde britânico, o National Health Services (NHS). Trata-se de um estudo de coorte, que acompanhou os usuários do NHS por nove anos, identificando aqueles que sofreram infarto e quais foram os desfechos ao longo do tempo. Mais de 430 mil pessoas tiveram infarto nesse período, com idade média de 67 anos por ocasião do evento cardíaco, mas com desvio padrão de mais de 14 anos. Isso significa que uma boa parcela dessas pessoas estava em idade produtiva. Um terço dos pacientes desenvolveu insuficiência cardíaca ou insuficiência renal ao longo do tempo de observação.
Do ponto de vista da gestão da saúde corporativa, não há dúvida de que o assunto merece muita atenção. Fazendo um cálculo bem despretensioso, e assumindo todo o risco de possíveis críticas quanto à propriedade e exatidão dessa estimativa, pense comigo: se considerarmos a casuística do estudo aplicada a uma empresa hipotética de 1000 empregados (ou beneficiários, no caso de usuários de plano médico), teremos aproximadamente três pessoas ao ano desenvolvendo insuficiência cardíaca ou renal em decorrência de infarto do miocárdio. Certamente, essa estimativa vai variar muito em razão de características próprias da população considerada, como no caso de grupos mais jovens, para citar só uma variável possível. Mesmo assim, não se pode desprezar a dimensão dos impactos humanos e financeiros desse tema.
A prevenção ainda é a principal ferramenta para a questão da DCV. Mas quando o infarto acontece, a ação vigilante e ativa das equipes de saúde pode melhorar o prognóstico e a evolução. No cenário corporativo, o acompanhamento próximo do serviço de saúde, sugerindo e aconselhando procedimentos de reabilitação, de controle clínico rigoroso e educação para empregados e familiares podem ser caminhos possíveis.
Artigo completo: Hall M, Smith L, Wu J, Hayward C, Batty JA, Lambert PC, Hemingway H, Gale CP. Health outcomes after myocardial infarction: A population study of 56 million people in England. PLoS Med. 2024 Feb 15;21(2):e1004343. doi: 10.1371/journal.pmed.1004343
