Quando a paixão pelo trabalho é excessiva
Declarar a paixão pelo que faz é quase obrigatório no mundo do trabalho. Sejamos francos: nem todas as pessoas realmente amam o que fazem. O trabalho ainda é, para muitos, meio de vida, de sobrevivência, reduzindo seu significado à remuneração. Mas dizer o contrário disso pode soar mal em um processo seletivo ou nos encontros de avaliação de desempenho, então falar que o trabalho é ou será apaixonante pode ser o discurso conveniente e evita alguns aborrecimentos.
Por outro lado, existem aqueles que amam o que fazem. Se você é um desses seres privilegiados, parabéns! Não há dúvida de que isso é um fator de bem-estar e proteção da saúde e isso faz melhor a vida de quem experimenta e de todos os que estão no entorno. O engajamento e a produtividade são favorecidos. Os impactos são positivos em toda equipe. As organizações apreciam esse ciclo. Todo mundo fica feliz.
Mas será que a paixão excessiva pelo trabalho pode ser uma armadilha silenciosa, em especial para os líderes?
Pesquisadores publicaram no Journal of Occupational Health Psychology um estudo que fornece pistas preciosas para responder a essa pergunta. Eles fizeram testes em duas etapas com líderes e liderados considerando fundamentalmente o perfil dos primeiros no que se refere à importância dada ao desempenho no trabalho como elemento da sua autoestima (IPSE, na sigla em inglês). Os líderes foram divididos em dois grupos: o primeiro com níveis muito elevados de IPSE (e classificados como “apaixonados obsessivos” pelo trabalho) e o segundo com nível de IPSE considerado normal ou baixo. Os desfechos incluíram a exaustão, baixo engajamento e percepção de perfil abusivo de liderança entre os subordinados. Os resultados mostraram desfechos desfavoráveis em todos os critérios entre os que eram liderados por pessoas com IPSE alto; os resultados foram melhores no grupo controle, ou seja, naquele em que os líderes tinham IPSE normal ou baixo.
Esses resultados revelam um lado sombrio na paixão excessiva pelo trabalho. É provável que essa manifestação oculte estados de sofrimento psíquico que se refletem em uma supervisão abusiva dirigida aos subordinados, repercutindo em afetos negativos e esgotando os recursos internos de todos. É uma situação que merece estudo e atenção das equipes de saúde e de recursos humanos, pois os efeitos em cascata promovem maus comportamentos semelhantes entre outros membros das organizações, gerando prejuízos e desconforto para todos. Um caminho possível pode ser a promoção de espaços de discussão e o cuidado das empresas em como proclamam ou valorizam comportamentos de excesso, incluindo aqueles que são vistos como virtudes, como a paixão pelo trabalho.
Artigo completo: Astakhova MN, Ho VT. Passionate leaders behaving badly: Why do leaders become obsessively passionate and engage in abusive supervision? J Occup Health Psychol. 2023 Feb;28(1):40-51. doi: 10.1037/ocp0000340
