Absenteísmo no trabalho é um fantasma que ronda o dia-a-dia das equipes de saúde e de recursos humanos. Ao mesmo tempo em que as faltas no trabalho geram queda da produtividade, sobrecarga para outros empregados e prejuízos às organizações, agir nas causas do absenteísmo deveria ser palavra de ordem no mundo do trabalho.

Muitas empresas olham para seus números com pouca maturidade. Explico: absenteísmo por doença é um indicador que precisa ser conhecido pelas corporações, mas tratá-lo como o número a ser torturado todo mês para que seja o menor possível não é a estratégia mais inteligente. A ausência ao trabalho é o evento final de uma série de condições (relacionadas ou não ao trabalho de maneira direta), que precisam ser entendidas antes de mais nada.

Um grande estudo publicado no American Journal of Industrial Medicine com mais de 17 mil trabalhadores franceses é uma peça que se soma ao entendimento do enorme quebra-cabeças do absenteísmo. Foram pesquisados os dias perdidos de trabalho por motivo de doença nos 12 meses anteriores, comparando com fatores psicossociais e outras exposições ocupacionais. Dos vinte fatores psicossociais pesquisados, dezessete foram preditivos de pelo menos um dia de absenteísmo, e foram mais determinantes para a ausência ao trabalho do que as exposições a riscos ocupacionais (do tipo físico ou químico, por exemplo). E mais: quanto mais fatores psicossociais nocivos foram identificados, mais frequente foi o desfecho de absenteísmo, em um padrão que podemos chamar de “dose-resposta”.

Esses números reforçam a convicção de que os fatores psicossociais e relacionados à organização do trabalho são determinantes na questão do absenteísmo nas organizações. O ponto é como as empresas estão agindo nesses fatores de forma genuína e responsável. É comum o discurso de que “cuidamos das pessoas”, o que pode aliviar certas tensões; mas atuar com firmeza em temas como exigências e controle do trabalho, apoio social (em especial dos líderes) e criação de relações de confiança ainda parece fazer parte de um retrato cheio de retoques para embelezar os relatórios de final de ano. E o absenteísmo é somente um dos termômetros para monitorar o adoecimento, não só do empregado, mas também das relações de emprego.

Organizações maduras devem colocar o tema para discussão com envolvimento da alta liderança, dos trabalhadores, das áreas de recursos humanos e das equipes de saúde e segurança do trabalho.

Artigo completo: Bertrais S, Pineau E, Niedhammer I. Prospective associations of psychosocial work factors with sickness absence spells and duration: Results from the French national working conditions survey. Am J Ind Med. 2023 Aug 10. doi: 10.1002/ajim.23526