O conceito não é novo: o termo original (“work-life balance”) começou a ser discutido na década de 70, mas nos últimos anos, nunca falamos tanto sobre a necessidade de equilibrar o trabalho e a vida pessoal. A imagem de uma balança de dois pratos é uma alegoria comum para definir a quantidade de tempo que você gasta fazendo o seu trabalho versus o tempo que você dispõe para estar com seus entes queridos ou se dedicando a interesses pessoais e hobbies.

Sei que várias pessoas podem levantar a mão e dizer: “mas se você trabalha com o que gosta, não é trabalho”, ou que essa divisão não existe (ou não deveria existir no mundo atual), ou ainda que pessoalmente convive muito bem com a mistura das obrigações do trabalho e fora dele. De fato, carreira e vida pessoal nem sempre existem em esferas separadas. Mas será que estamos sabendo nos dedicar de verdade para estar inteiros no momento presente, ou estamos no “modo multitarefa” fazendo um pouco de tudo ao mesmo tempo? (e fazendo mal cada coisa...)

Neste sentido, o conceito integração vida-trabalho parece uma perspectiva interessante: a combinação entre as responsabilidades pessoais e profissionais. É um olhar segundo o qual o trabalho é um dos aspectos das nossas vidas e precisa ser considerado junto com outros elementos importantes, como a vida doméstica e familiar, nossa percepção de bem-estar individual e senso de comunidade.

Os trabalhadores já consideram a possibilidade da integração vida-trabalho como um aspecto importante para aceitar uma proposta ou manter-se em um emprego, entendendo esse aspecto como sendo mais importante do que a remuneração. Algumas empresas já perceberam que esse pode ser um fator de aumento da produtividade e uma meta-análise aponta para essa direção. Os resultados do estudo mostraram melhor desempenho organizacional da ordem de 20% nas corporações em que havia a percepção dos empregados da possibilidade de um arranjo vida-trabalho adequado.

Mas não podemos esquecer de outra variável desta equação: em que pese o papel fundamental das organizações em favorecer o equilíbrio vida-trabalho, os fatores individuais também estão fortemente envolvidos, sobretudo no que se refere à resiliência. Pesquisadores italianos revisaram a literatura especializada e concluíram que pessoas com um perfil mais resiliente enfrentam melhor os desafios de equilibrar as atividades profissionais com a vida pessoal, além de terem uma avaliação melhor em relação ao significado do seu trabalho. Segundo o estudo, essas pessoas também têm melhores desfechos quando o trabalho não oferece recursos de melhor ajuste entre a vida pessoal e profissional.

Então, duas grandes avenidas estão diante de nós que cuidamos da saúde dos trabalhadores: criar meios para que as empresas favoreçam a integração vida-trabalho e capacitar os empregados com ferramentas que aumentem sua capacidade de desenvolver a resiliência. Há um longo caminho a percorrer.

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Artigo equilíbrio vida-trabalho e produtividade: Wong K et al. How Is Work-Life Balance Arrangement Associated with Organisational Performance? A Meta-Analysis. Int J Environ Res Public Health. 2020 Jun 21;17(12):4446. doi: 10.3390/ijerph17124446

Artigo equilíbrio vida-trabalho e resiliência: Bernuzzi C et al. The role of resilience in the work-life interface: A systematic review. Work. 2022;73(4):1147-1165. doi: 10.3233/WOR-205023