Cães no local de trabalho
A relação entre cães e humanos tem raízes na pré-história. Acredita-se que essa relação tenha se desenvolvido por diversos fatores, tais como proteção, fidelidade, empatia e reciprocidade. O papel terapêutico dos cães tem sido objeto de vários estudos, sobretudo em crianças e idosos. Outros estudos demonstram os benefícios que os donos de cães têm em relação à saúde mental e física, além da redução de sintomas depressivos. A influência da presença de cães como companhia já foi associada à redução dos níveis de cortisol (um hormônio do estresse) e a um efeito benéfico semelhante a conversar com um amigo próximo.
Algumas empresas já adotam a prática de permitir que seus empregados tragam seus animais de estimação para o escritório, com políticas “pet friendly” que beneficiem os colaboradores com o vínculo e a interação homem-animal. É possível verificar se este benefício de fato existe e, se existe, como ele acontece nos ambientes de trabalho?
Pesquisadores conduziram um estudo qualitativo com entrevistas semiestruturadas em cinco empresas na Alemanha e os resultados podem fornecer elementos adicionais ao conhecimento atual. Ainda que estudos qualitativos sejam objeto de críticas de alguns, neste caso ele se mostrou apropriado para o foco da pesquisa e as conclusões podem ajudar outras companhias na decisão das suas políticas “pet friendly”.
Inicialmente é importante ponderar os possíveis riscos da presença de cães no local de trabalho. Estima-se que 10 a 20% das pessoas sejam alérgicas a pelos de cães, com sintomas que variam desde olhos vermelhos e prurido até problemas respiratórios e erupções na pele. As empresas precisam considerar também as fobias, medos menores e antipatia pelos cães que os demais empregados podem manifestar. Além disso, os empregadores devem pensar na responsabilidade legal de eventuais ferimentos causados pelos animais.
Outro ponto que precisa ser levado em consideração é a influência dos cães na produtividade. A presença do animal é uma responsabilidade extra para o dono no ambiente de trabalho: algumas empresas descrevem problemas com cães roubando comida, latindo e se comportando agressivamente com outros cães no escritório, o que força os donos a intervir e negligenciar suas atribuições no trabalho.
No entanto, quando os empregados foram questionados sobre a presença dos cães no escritório, as respostas tiveram tendência para enfatizar os benefícios em contraposição aos riscos e eventuais contratempos. De acordo com os relatos, os cães ajudam os funcionários a lidar com o estresse: pequenas pausas para interagir com o cão ajudam a recarregar as energias e melhorar o humor. Da mesma forma, os empregados que não são proprietários se beneficiam com essas pausas curtas para interagir com os animais de seus colegas. Outro ganho coletivo foi a percepção de que donos e colegas faziam mais movimento e caminhadas (principalmente no intervalo do almoço), dada a conexão e apego de todos aos animais nesses momentos, o que contribuía também para a socialização.
A coesão e integração social também parecem ser potencializadas. Os donos de cães muitas vezes se apoiam, criando subcomunidades dentro da empresa, proporcionado serviços mútuos, como cuidar do animal de um colega quando ele está de férias ou em viagem de negócios. Esse apoio se estende envolvendo colegas que não têm cachorros, demonstrando a influência positiva no senso de comunidade.
Esses resultados parecem reforçar a crença de que os cães no local de trabalho podem ter uma influência positiva no bem-estar individual e coletivo dos membros da organização. Certamente, não são todas as empresas que estão preparadas para dar esse passo, mas a discussão é bem-vinda e pode trazer soluções interessantes.
Artigo completo: Wagner E, Pina E Cunha M. Dogs at the Workplace: A Multiple Case Study. Animals (Basel). 2021 Jan 5;11(1):89. doi: 10.3390/ani11010089
