Semana de 4 dias de trabalho: possíveis efeitos na saúde mental
A discussão sobre a possibilidade de uma semana de trabalho de quatro dias tem ganho espaço no mundo corporativo. Alguns países e empresas vêm testando essa prática, inclusive no Brasil. As organizações 4 Day Week e Reconnect Happiness at Work vão conduzir um experimento entre junho e dezembro de 2023 de um modelo de semana de trabalho reduzida em empresas que queiram participar da ação. Foi divulgado que o modelo será do tipo “100-80-100”: 100% do salário, trabalhando 80% do tempo, mantendo 100% da produtividade e que serão avaliadas variáveis como resultados financeiros, turnover, estresse e equilíbrio entre vida pessoal e profissional.
A ideia de uma semana de trabalho mais curta parece agradar diversas pessoas. Ter mais tempo para descanso, lazer, estudo, tempo com a família e hobbies soa como um sonho para muitos trabalhadores. Pedro Gomes, professor de Economia da Universidade de Londres, autor do livro “Friday is the New Saturday: How a Four-Day Working Week Will Save the Economy” (ainda não publicado no Brasil), argumenta fortemente a favor de uma semana de quadro dias com diversos motivos pelos quais a sociedade teria a ganhar com essa mudança. Em artigos futuros, vamos aprofundar os interessantes argumentos de Pedro Gomes.
Há que se ponderar que uma semana com menos dias trabalhados pode trazer um efeito adverso para alguns trabalhadores: a concentração de todas as tarefas em menos dias pode levar a uma intensificação do trabalho, sobretudo nos empregados administrativos que, em tempo de trabalho remoto, podem exceder ou continuar excedendo as horas trabalhadas para fazer suas entregas. Mas, esse é mais um motivo para estimular iniciativas que possam favorecer experimentos de novos modelos organizacionais e mais opções para empregados e empregadores.
Um artigo publicado na Occupational and Environmental Medicine pode dar uma pista de possíveis efeitos de uma semana de trabalho mais curta na saúde mental dos trabalhadores. O estudo não foi desenhado especificamente para avaliar a semana de quadro dias, mas sim para verificar os efeitos psicológicos da carga horária semanal de trabalho. Foram analisados dados de mais de 15 mil empregados de cinco empresas no Japão, que foram acompanhados por um semestre com a aplicação de questionários sobre sintomas físicos e psíquicos. A carga horária dos participantes variava entre menos de 35 até mais de 55 horas de trabalho por semana.
Os resultados desse estudo foram muito interessantes: houve uma relação que se pode chamar “dose-resposta” entre o número de horas trabalhadas por semana e os sintomas psíquicos. Irritabilidade, ansiedade, humor deprimido e fadiga foram percebidos com maior frequência quanto maior era a carga horária de trabalho semanal, sendo menos frequentes no grupo que trabalhava menos de 35 horas/semana. Pensando na proposta de uma semana de quatro dias na realidade brasileira, é plausível admitir um benefício semelhante ao grupo que teve resultado mais favorável no grupo de pesquisa.
O assunto é instigante e merece discussão e construção coletivas. Fica o convite para sua opinião neste fórum e para acompanhar novos artigos nas próximas semanas.
