O aumento da expectativa de vida traz diversos desafios no contexto da saúde, previdência e trabalho. Se por um lado temos um contingente de trabalhadores experientes prestes a se retirar do mercado em razão da aposentadoria, por outro as regras da previdência social e a condição individual de saúde impõem difíceis escolhas àqueles de mais idade.

Muitas vezes o mercado de trabalho tende à contratação de pessoas mais jovens em detrimento dos idosos. Aqueles que alcançam a aposentadoria são frequentemente substituídos por outros empregados, ainda que os mais novos não tenham as mesmas competências e experiência. Para alguns idosos, deixar de trabalhar abruptamente, sem um período de preparação ou transição para essa retirada, causa grandes impactos na qualidade de vida, satisfação pessoal e identidade.

Dados internacionais apontam que um terço dos idosos que se mantém trabalhando o fazem por necessidade financeira. Sabemos que o trabalho é melhor para a saúde do que o desemprego, mas qual é o ponto em que os benefícios de manter-se trabalhando após a aposentadoria superam os prejuízos para a saúde física e mental?

Pesquisadores do Reino Unido analisaram diversos estudos em busca de evidências sobre benefícios e prejuízos de trabalhar após os 64 anos de idade, tanto na saúde física como mental. Quando se considera a saúde em geral, idosos que trabalham têm uma chance menor de acidente vascular cerebral comparado aos inativos da mesma idade (14% versus 20%). Trabalhadores japoneses tiveram menor probabilidade de precisar de um cuidador e trabalhadores norte americanos tiveram menor declínio da capacidade para as atividades da vida diária quando se mantiveram no mercado de trabalho. Foram observados efeitos negativos à saúde física quando o trabalho gerava baixa recompensa e quando o motivo de continuar trabalhando era exclusivamente por razões financeiras, e não por prazer. No que se refere à saúde mental, efeitos positivos foram observados em pontos de escala de depressão geriátrica e efeitos neutros para distúrbios do sono.  

Embora haja resultados variados entre os diferentes estudos, o maior peso da evidência é que existe resultado positivo ou neutro em se manter trabalhando após a aposentadoria. Os efeitos neutros podem ser vistos como benéficos, por melhora nas finanças pessoais daqueles que podem continuar trabalhando com satisfação pessoal e em tarefas compatíveis com suas preferências.

No entanto, um possível viés dessa análise é que aqueles com melhor estado de saúde conseguem se manter no emprego, enquanto aqueles com pior estado de saúde não conseguem continuar trabalhando. Quando estamos diante de um idoso capaz de se manter ocupado sabemos que ele tem melhor prognóstico em diversas esferas da vida e da saúde, o que pode ser encorajado individual ou coletivamente.

As organizações têm um papel importante para oferecer oportunidades de trabalho aos idosos. Algumas empresas já perceberam que equipes que contam com profissionais mais experientes podem se beneficiar das múltiplas possibilidades de soluções de problemas e da riqueza da convivência de diferentes gerações. As equipes de saúde devem acompanhar de perto essa população, cuidar, incentivar e monitorar para que tenham as melhores condições de exercer suas competências com saúde e segurança.

Artigo completo: Baxter S et al. Is working in later life good for your health? A systematic review of health outcomes resulting from extended working lives. BMC Public Health. 2021 Jul 9;21(1):1356. doi: 10.1186/s12889-021-11423-2