A raiva e estresse em período eleitoral podem desencadear arritmias cardíacas em pessoas suscetíveis. Essa é a conclusão de um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos que acompanharam mais de 1200 pacientes durante as eleições presidenciais daquele país em 2016.

Naquele ano, houve uma grande polarização em torno das duas candidaturas, algo comparável ao que estamos vivenciando no Brasil atualmente. Os pacientes escolhidos para a pesquisa tinham dispositivos cardíacos implantados (cardiodesfibrilador ou marca-passo) há pelo menos dois anos por motivos variados, e não com a finalidade do estudo. Esses aparelhos guardam relatórios sobre o ritmo cardíaco, o que permite analisar e comparar a ocorrência de alterações ao longo dos meses. Nessa pesquisa, foram analisados os relatórios do traçado cardíaco das duas semanas que antecediam o pleito e as quatro semanas após, comparando a ocorrência de arritmias de cada paciente com o mesmo período do ano anterior.

Os resultados surpreenderam: a ocorrência de arritmias em geral foi 77% maior quando comparada com o mesmo período do ano sem eleições. Para a arritmia ventricular (um tipo grave, que pode levar à morte súbita) o aumento foi de 60% durante o período eleitoral.

Os pesquisadores alertam sobre a possibilidade de o estresse mental de uma eleição influenciar a saúde cardiovascular em longo prazo, já que aumentos na frequência e duração das arritmias está associado à instabilidade clínica, agravamento da insuficiência cardíaca, hospitalização e morte em pacientes com cardiodesfibriladores. Embora os mecanismos não tenham sido avaliados diretamente nesse estudo, a raiva e as emoções negativas estão associadas a aumentos da atividade do sistema neuro-hormonal (que envolve a ação da adrenalina), alterações do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, aumentando o risco de alterações cardíacas e de ruptura de placas de gordura nas coronárias.

Apesar do estudo ter incluído pessoas com dispositivos cardíacos implantados, é razoável pensar que o risco possa ser aumentado também para pessoas sem histórico de doença cardíaca grave, mas que sejam suscetíveis às alterações orgânicas provocadas pelas discussões acaloradas que acompanhamos no período eleitoral. Então, pense bem se vale a pena entrar naquela discussão sobre um ou outro candidato: além de preservar algumas amizades, pode fazer bem para o seu coração.

Artigo completo: J Am Heart Assoc. 2021;10:e020559. DOI: 10.1161/JAHA.120.020559